Comentário ao texto A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin
Na última aula surgiram leituras em direções opostas sobre o texto “A obra de arte...” de Benjamin. Divergências quanto à positividade ou negatividade da aura e da sua destruição, da evolução da técnica, do cinema, do teatro, sobre a relevância da autenticidade do original, etc. Um detalhe que talvez complemente esta discussão diz respeito às diferentes versões que este texto possui. Parte das divergências talvez tenha surgido do fato de termos lido duas versões diferentes do texto. Parte da turma utilizou a versão traduzida por Paulo Sergio Rouanet (é a primeira versão do texto). A outra parte utilizou a tradução de José Lino Grünnewald (a segunda versão do texto). A explicação abaixo pode ajudar a elucidar algumas diferenças.
No livro Constelações, Luciano Gatti analisa as bases filosóficas de Theodor Adorno e Walter Benjamin, tentando entender o porquê da discórdia dos dois pensadores frente a alguns fenômenos estéticos como o cinema ou o Teatro Épico do Brecht (entre outros), uma vez que os dois partiam de um projeto filosófico comum desde os anos 20. Bom, resumindo muito, e sendo até um pouco grosseiro, a idéia é que Adorno tornou-se adepto das concepções filosóficas de Benjamin ao ler suas primeiras obras sobre crítica literária (uma Sobre o Conceito de Crítica de Arte Primeiro Romântico Alemão, outra sobre As Afinidades Eletivas de Goethe e outra sobre o Drama Barroco Alemão). Mas quando ambos se defrontam com novas manifestações estéticas (o cinema, o teatro épico, o surrealismo, a fotografia, o dadaísmo, etc), e com o avanço da técnica e da indústria cultural, tomam posições diferentes sobre eles. Enquanto Adorno continua ligado às bases filosóficas anteriores, Benjamin reformula suas concepções, que para ele não davam conta dessas novas manifestações.
Paralelamente a isto, o futuro financeiro de Benjamin influenciará na discussão dos dois. Ou nos resultados dela. Segundo Gatti, “após o fracasso de sua carreira universitária em 1925, com a recusa pela Universidade de Frankfurt do livro sobre o Drama barroco como tese de habilitação, ele havia conseguido sobreviver em Berlim escrevendo uma série de trabalhos para o rádio e para os periódicos... num momento em que a precariedade material, que se agravaria a partir do ano seguinte [1933] no exílio, o impedia de dedicar-se a qualquer trabalho de maior envergadura. São essas dificuldades financeiras que o aproximam do Instituto de Pesquisa Social [de Frankfurt].”¹
Gatti então mostra como essa situação inverte a discussão entre Benjamin e Adorno (que antes traduzia-se no primeiro com maior autoridade sobre o segundo). Agora, nas cartas, além do crescimento intelectual de Adorno, a posição superior no Instituto e a dependência material de Benjamin o colocariam em outra posição:
“O fato de o Instituto lhe ter restado como praticamente a única possibilidade de publicação de seu trabalho colocou-o numa relação de dependência material repleta de conflitos financeiros e intelectuais. Os três ensaios que publicou na revista do Instituto a partir de 1936 foram acompanhados de desgastantes negociações. ‘A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica’ foi publicado em 1936 apenas em tradução francesa após um extenuante processo de revisão que eliminou as menções expressas ao marxismo e alterou substancialmente o conteúdo do texto.”²
Longe de encerrar a discussão, pelo menos acho que isto fornece alguns dados a mais para pensarmos quando lermos a primeira ou a segunda versão do texto; ambas não publicadas à época.
Links:
Primeira versão do texto: http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&cd=3&ved=0CCAQFjAC&url=http%3A%2F%2Fleandromarshall.files.wordpress.com%2F2008%2F03%2Fa-obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica.doc&ei=69OWTL-7IYKB8gawkp2NDA&usg=AFQjCNFVnGKnf7SAttLAr_Op066l0rrupA&sig2=8CBAsJE3aiLbRUglrNy30A
Segunda versão do texto: http://www.scribd.com/doc/17365360/Walter-Benjamin-a-Obra-de-Arte-Na-Era-de-Sua-Reprodutibilidade-Tecnica
1- Luciano GATTI, Constelações. Edições Loyola: São Paulo, 2009. pp. 18-19.
2- Idem, pp. 19-20. A nota que acompanha o trecho diz ainda: “A decepção de Benjamin com o resultado do trabalho pode ser constatada pelo esforço em publicar a versão original na revista Das Wort.”

3 Comentários:
mto legal o post rafael!
qdo cheguei em casa empolgado com a discussao fui ver o referencial do leandro konder, que tem um livro sobre o benjamim.
acho que ele leu a versao que eu li e não essa outra...
vc jah leu o livro do konder sobre o benjamim?
vou postar este email no blog; continuemos lah!
abçs
gustavo
não vi não. você pode levar na sexta-feira preu dar uma olhada?
bom, quanto ao livro do Luciano, vim conferir um pedaço que ainda não consegui ler por completo, apenas o inicio (estou lendo este livro e ainda estou no inicio, esta parte está mais pro final):
"As controvérsias entre Benjamin e Adorno em torno de seus respectivos ensaios 'A obra de arte...' (1935-6) e 'Sobre Jazz' (1936) apresentam uma nova constelação das questões discutidas acima. Os debates são motivados inicialmente pela avaliação positiva do cinema, apresentada por Benjamin como possibilidade de rearticulação das relações entre arte e verdade. No aperfeiçoamento técnico subjacente ao desenvolvimento do cinema, Benjamin encontra não apenas novas condições para a produção artística, mas também uma nova relação entre o público e as obras de arte, as quais não poderiam ser compreendidas com antigos conceitos herdados da estética burguesa. O cinema não é assim abordado com concepções como a obra de arte autônoma, mas a partir da estética em seu sentido mais amplo, ou seja, em função de uma transformação antropológica da percepção humana, a qual se define pela correlação entre o caráter de choque da imagem cinematográfica, produzida pelas técnicas de montagem, e uma forma de percepção marcada pelo predomínio de elementos táteis e corporais.
(...)A questão que se apresenta então a Benjamin é saber se essas novas técnicas artísticas serviriam apenas à ilusão das massas - falsa aparência desvinculadas da verdade - ou se elas apresentariam elementos que poderiam ser reorientados de forma emancipatória." (pp. 229-230)
Depois, aparentemente, ele mostra como Adorno duvida dessa potencia emancipatória dessas novas manifestações, e começa a analisar a divergência de ambos.
levo sim, pode deixar!
abçs
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